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terça-feira, 26 de abril de 2011

STORM RELATOS: TEMPESTADE ASSOCIADA A UM SCM NA NOITE DO DIA 22/04/2011

A postagem de hoje faz parte do quadro "Storm Relatos", onde o visitante colabora relatando uma tempestade em sua localidade, com o uso também de fotos e/ou vídeos. O relato foi feito pelo colaborador Euller Simiano, que com auxílio de sua câmera gravou o vídeo onde aparecem as descargas elétricas da tempestade durante a noite do dia 22/04 em Araranguá (sul catarinense), última sexta-feira. O vídeo segue abaixo.

video

Segundo Euller, a chuva foi de intensidade moderada, com ausência de ventos fortes e também não houve granizo, pelo menos no seu local de observação. O que chamou a atenção mesmo, de acordo com ele, foram os relâmpagos. Na imagem de satélite com detecção de descargas elétricas (abaixo), percebemos elas concentradas justamente sobre a região do litoral sul do estado.
Se pegarmos os dados da estação meteorológica do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) em Araranguá, veremos que durante o evento o pluviômetro somou 11,8mm, o que consiste em uma chuva moderada e breve. O vento, como bem afirmou Euller, esteve longe de ser forte, atingindo no máximo 35,2km/h por volta das 21h.

Através da imagem abaixo, podemos notar que o radar meteorológico do Morro da Igreja detectava uma refletividade em torno de 40 dBZ (cor laranja dentro da cor amarela) sobre a célula convectiva de Araranguá (destacada na figura) na hora do temporal, o que indica tempestade moderada e com nuvens do tipo Cumulunimbos profundas, ou seja, atingindo altas altitudes. 

Perceba que na próxima imagem, o radar nos mostra nuvens em forma de um arco, que vai desde a região de São Joaquim até o mar na altura do litoral sul catarinense. 

Esse formato de um arco tendendo para norte/nordeste, indica que ali se formou uma frente de rajada. Esse fenômeno decorre pelo grande entranhamento  de ar frio na traseira da tempestade, gerada pela precipitação e pelo grande influxo de ar frio nos níveis superiores. Esse ar frio desce com tanta força, que cria fortes rajadas de ventos, gerando aquela forma de arco nas nuvens e possibilitando que o ar quente na sua frente ascenda rapidamente, gerando as nuvens do tipo Shelf Cloud (nuvem de prateleira). 

As principais características na passagem de uma frente de rajada são o rápido aumento de pressão atmosférica, diminuição rápida de temperatura e mudança brusca na direção e velocidade do vento. Isso foi observado em Laguna, ao norte de Araranguá. Por lá, o vento alcançou 69km/h, a pressão subiu 2 hPa (Hectopascais) em menos de 2 horas e a temperatura mínima horária caiu de 22,3ºC para 19,7ºC.

Tempestades com muitos relâmpagos, frentes de rajada, linhas de instabilidade e chuvas intensas na noite daquela sexta-feira, estiveram associadas a um Sistema Convectivo de Mesoescala - SCM, que é um conjunto de várias tempestades que se fundem, compartilhando suas energias potencias, sendo que a dissipação de uma ajuda na formação da outra e sim por diante. Os SCM's podem possuir formas lineares ou quase circulares, podendo durar mais que 12 horas. O do dia 22/04, sexta-feira, se formou por volta das 9 horas da manhã e perdeu sua configuração na manhã de sábado, quando entrou uma frente fria no Sul do Brasil. Na animação de imagens de satélite, é possível acompanhar esse desenvolvimento.
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Analisando sinoticamente, percebemos que durante o dia de sexta-feira, havia ventos fortes nos altos níveis da troposfera, as chamadas correntes de jato subtropical, que estavam com velocidades de 140 a 200km/h entre a Argentina, Uruguai, RS e sul de SC, como mostra a figura abaixo.
Esse jato subtropical em altitudes superiores permitiu com que o ar dos baixos níveis ascendesse mais rapidamente, gerando uma área de baixa pressão atmosférica. Isso acabou aumentando a velocidade da corrente de jato em baixos níveis da troposfera, que trazem umidade e calor da floresta amazônica. Na próxima figura, vemos que já na noite de sexta-feira esses ventos amazônicos sopram com força direcionados para o Sul do Brasil (áreas avermelhadas).
Na próxima figura, temos um corte vertical da troposfera, mostrando os valores de ômega (velocidade vertical do ar) desde os baixos níveis até uma altitude de 12km, sobre a latitude 30ºS e entre as longitudes 58ºW e 46ºW. Essa região compreende a parte mais intensa do SCM, ou seja, aquela sobre o RS. Note que as correntes de ar ascendente (valores negativos representados pelas cores entre amarelo queimado e vermelho) vão desde a superfície até quase o topo da troposfera, sendo mais intensas na média troposfera (em torno de 5km de altitude). Ou seja, o ar sobe com tanta força que chega a ultrapassar a média troposfera, gerando nuvens muito bem desenvolvidas.
Outro padrão importante é a umidade relativa. Na figura abaixo temos a mesma posição da figura anterior, porém agora mostrando umidade. Perceba que os valores acima de 60% (cor azul), o que já é alto, cobrem boa parte da troposfera. Observe que fora do SCM, ou seja a oeste da longitude 56ºW e a leste da longitude 50ºW, há uma intensa camada de ar mais seco (cor vermelha) logo acima da superfície, formada pelo eixos de cavados (onde o ar descende).
Analisando isso sobre Santa Catarina, temos um novo corte vertical da troposfera, mostrando os valores de ômega (velocidade vertical do ar) sobre a longitude 49ºW entre as latitudes 36ºS e 24ºS. O município de Araranguá está localizado entre as latitudes 28ºS e 29ºS, onde há forte elevação do ar. Note que entre cada área de ascendência de ar (ômega negativo), há áreas de descendência (ômega positivo), ou seja, mostrando que são várias células convectivas unidas entre si.
Gostaria de agradecer ao colega Euller por ter colaborado com o blog. Espero que continue acompanhando e quando puder colaborar novamente, esteja a vontade. A ajuda de vocês me motiva a continuar com este blog. Abraços e até mais.

DADOS: INMET, CPTEC/INPE, REDEMET
VÍDEO: Euller Simiano
Mapas de criação própria

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